Aviso: Esta parte final contém cenas íntimas explícitas e elementos de suspense. Para leitoras maiores de 18 anos.
O dia inteiro foi um borrão.
Sentei-me na conferência de arquitetura, vendo slides de estruturas de aço e concreto, mas tudo o que conseguia pensar era na curva de seu pescoço, no sabor de sua pele, na maneira como ela dizia meu nome entre beijos.
*Encontre-me hoje à noite no bar do hotel, 20h?*
As palavras do meu bilhete ecoavam em minha mente. Tola. Inocente. Como se uma noite como aquela pudesse ser reduzida a um encontro casual num bar de hotel.
Às 19h55, estava diante do espelho do meu quarto, vestindo um vestido preto simples – o mesmo que trouxera para um jantar de gala que agora parecia ridículo. Minhas mãos tremiam enquanto passava batom. Tentei me convencer de que era apenas ansiedade.
Mas sabia que era medo. Medo de que ela não aparecesse. Medo de que aparecesse.
O bar do hotel era tudo o que um bar de hotel cinco estrelas em Paris deveria ser – elegante, discreto, e completamente sem alma. Couro carmesim, luzes baixas, o som abafado de jazz piano.
E lá, no canto mais escuro, sentada em um banco de veludo, estava ela.
Marina.
Não estava de smoking desta vez. Vestia um macacão de cetim preto que parecia derramado sobre seu corpo, deixando um ombro descoberto, mostrando parte das tatuagens geométricas. Seu cabelo estava impecável, seus olhos âmbar fixos em mim desde o momento em que entrei.
Meu coração deu um salto. Ela tinha vindo.
Caminhei até sua mesa, as pernas trêmulas. “Você veio.”
“Você me convidou.” Sua voz era mais contida do que na noite anterior. Mais… profissional.
Sentei-me. “Pensei que talvez…”
“Que talvez eu tivesse ido embora?” Ela inclinou a cabeça. “Eu quase fui.”
“Por que não foi?”
Ela não respondeu imediatamente. Em vez disso, sinalizou ao garçom. “Champanhe. O Krug.”
Quando o garçom saiu, ela olhou para mim, seus olhos escaneando meu rosto como se procurasse algo. “Porque você me deixou um bilhete.”
“Isso é motivo suficiente?”
“Deve ser.” Ela tocou a borda do copo d’água com a ponta do dedo. “Ninguém me deixa bilhetes.”
O champanhe chegou. Marina esperou o garçom servir e sair antes de erguer sua taça. “À noites que nunca deviam acabar.”
Bebemos. O champanhe era seco e caro, mas eu mal conseguia sentir o gosto.
“Marina,” comecei, mas ela levantou uma mão.
“Antes que você diga mais… há coisas que você precisa saber sobre mim.”
“Como o que?”
Ela olhou em volta, depois de volta para mim. “Meu nome não é Marina.”
O chão pareceu desaparecer sob meus pés. “O quê?”
“É um dos meus nomes.” Ela bebeu mais champanhe. “Trabalho para… certas pessoas. Certos governos. Coletando informações.”
Eu ri, um som sem humor. “Isso é uma piada?”
“Gostaria que fosse.” Seus olhos eram sérios, sombrios. “A festa de ontem à noite não era uma festa, Sofia. Era uma operação. O homem que eu estava observando… ele é um traficante de armas. Eu estava lá para me aproximar dele.”
As palavras flutuavam entre nós, sem sentido. “E eu?”
“Você…” Ela respirou fundo. “Você era uma distração não planejada. Algo que não deveria ter acontecido.”
Sentei-me mais ereta, as mãos apertadas no colo. “Então tudo foi… o que? Uma missão?”
“Não!” A palavra saiu mais alta do que ela pretendia. Ela olhou em volta, baixou a voz. “Não. Você foi… você é real. A única coisa real que aconteceu naquela sala.”
“Como posso acreditar em você?”
Ela deslizou algo sobre a mesa – uma carteira de couro preto. Dentro, três passaportes com sua foto, mas nomes diferentes. Marina Rossi. Alina Kovács. Isabelle Laurent.
“Merda,” eu respirei.
“Sim.” Ela fechou a carteira, guardando-a. “E agora tenho um problema. O alvo… ele te viu comigo. Te fotografou.”
O sangue esfriou nas minhas veias. “O quê?”
“Ele é paranoico. Pensa que você é minha parceira. Minha… cobertura.” Ela passou uma mão pelo cabelo, e pela primeira vez, vi-a vulnerável. Assustada. “Tenho um voo para Berlim em três horas. Você deveria vir comigo.”
Eu apenas a olhei, incapaz de processar. “Ir com você? Para Berlim?”
“É mais seguro.” Ela inclinou-se para frente. “Sofia, essas pessoas… elas não brincam. Se ele pensa que você está envolvida…”
“Mas eu não estou! Sou uma arquiteta, porra! Estou aqui para uma conferência sobre sustentabilidade em edifícios altos!”
“Eles não vão se importar.” Sua mão encontrou a minha sobre a mesa. “Por favor. Vem comigo. Só até eu conseguir resolver isso.”
Olhei para suas mãos – aquelas mãos que me conheciam tão intimamente apenas horas antes. Para seus olhos – aqueles olhos âmbar que prometiam segredos e perigo.
“E se eu disser não?”
Ela retirou a mão. “Então você nunca mais me verá. E você ficará aqui, esperando que homens perigosos não decidam que você sabe demais.”
A sala parecia girar. Jazz, champanhe, perfume caro – e essa loucura, essa perigosa, aterrorizante loucura.
“Preciso pensar,” disse, levantando-me. “Preciso… ar.”
Marina levantou-se também. “Não vou para o aeroporto sem você. Quarto 1832. Você tem uma hora.”
Corri para o banheiro, trancando-me em uma cabine. Respirei fundo, tentando acalmar o coração acelerado.
Era loucura. Pura loucura.
Mas então lembrei… o homem na festa. Alto, careca, com um terno que parecia caro demais. Ele tinha olhado para mim. Na época, pensei que fosse apenas mais um homem rico olhando. Mas agora…
Minha mão foi ao bolso, puxando o telefone. Pesquisei rapidamente “traficante de armas Paris festa hotel”…
E lá estava ele. Sergei Volkov. Fotografias em eventos beneficentes, sorrindo ao lado de políticos. Artigos sobre suas “empresas de logística”. Um olhar frio que agora reconhecia.
Marina estava dizendo a verdade.
Saí do banheiro, minhas pernas decidindo antes do meu cérebro. Subi no elevador, pressionei 18.
A porta do quarto 1832 estava entreaberta.
Empurrei-a, entrando.
O quarto estava escuro, apenas uma lâmpada acesa. Marina estava em pé diante da janela, olhando para as luzes de Paris.
“Decidiu?” ela perguntou, sem se virar.
“Se eu for com você… o que acontece?”
Ela virou-se. Seus olhos estavam vermelhos, como se tivesse chorado. “Ficamos juntas até isso passar. Depois… você volta para sua vida.”
“E você?”
“Eu continuo.” Ela encolheu os ombros, um movimento triste. “É a vida que escolhi.”
Caminhei até ela. “Na noite passada… foi real para você?”
“Sofia…” Ela fechou os olhos. “Nada na minha vida é real. Até você.”
Foi o que eu precisava ouvir.
Minhas mãos encontraram seu rosto, puxando-a para um beijo. Desta vez, não foi sobre paixão. Foi sobre promessa. Sobre decisão.
Ela respondeu com a mesma urgência, suas mãos agarrando minhas costas, puxando-me contra ela.
“Você vai?” ela perguntou entre beijos.
“Sim.”
“Deus.” Ela enterrou o rosto em meu pescoço. “Você não sabe o que está fazendo.”
“Sei perfeitamente.” Puxei-a em direção à cama. “Temos uma hora?”
“Quarenta e cinco minutos agora.”
“Então não vamos desperdiçar.”
Desta vez, foi diferente. Mais lento. Mais profundo. Como se cada toque fosse uma despedida que não queríamos admitir.
Deitada sob ela, olhando em seus olhos enquanto nos movíamos juntas, eu sabia. Sabia que estava me apaixonando por uma mulher que não existia. Por uma fantasia perigosa.
E não me importava.
Quando chegamos ao clímax, foi juntas – nossos corpos tremendo em sincronia, nossos gemidos misturando-se no ar escuro do quarto.
Ela desabou sobre mim, sua respiração quente contra meu pescoço. “Por que você está fazendo isso?”
“Porque quando você me olha,” eu sussurrei, “sinto-me vista. De verdade.”
Ela ergueu a cabeça, seus olhos brilhando com lágrimas não derramadas. “Eu te vejo, Sofia. Mais do que deveria.”
O táxi para o aeroporto foi silencioso. Nossas mãos entrelaçadas no banco de trás, nossos olhos fixos na Paris noturna que passava pelas janelas.
No terminal particular, ela mostrou nossos passaportes – ela como Isabelle Laurent, eu como sua… esposa.
“É mais seguro assim,” ela sussurrou enquanto subíamos a escada do jato particular.
O interior era luxuoso – couro, madeira escura, champanhe gelando em um balde.
Assim que a porta se fechou, ela me puxou para um canto escuro, suas mãos sob meu vestido. “Preciso de você mais uma vez,” ela disse, sua voz rouca. “Antes que isso acabe.”
Não houve preliminares. Apenas necessidade pura, crua. Ela me levantou contra a parede, entrando em mim com dedos e depois com uma pequena cinta que tirou da bolsa. Meu vestido amassado na cintura, suas calças abertas, nos movendo com uma urgência desesperada.
“Você é minha,” ela rosnou em meu ouvido. “Mesmo que seja só por esta noite.”
“Sempre,” eu gemi, me entregando completamente.
Quando o avião decolou, estávamos deitadas no sofá de couro, enroladas uma na outra, nossos corpos ainda tremendo dos espasmos finais.
Dois meses depois
Estou de volta em São Paulo, em meu apartamento com vista para o Parque Ibirapuera. A conferência acabou. Minha vida voltou ao normal.
Quase.
Às vezes, no meio da noite, meu telefone toca. Número bloqueado.
Atendo. Nada é dito.
Mas posso ouvi-la respirar. E sei que ela pode me ouvir também.
E então, há uma semana, um pacote chegou. Sem remetente. Dentro, um pedaço de tatuagem – o desenho geométrico que cobria seu ombro esquerdo. E um bilhete:
Sofia –
Berlim foi fria sem você.
Moscou é pior.
Um dia, quando isso acabar…
Te encontro no terraço.
M.
Guardo o pedaço de papel debaixo do travesseiro. Às vezes, quando acordo de um sonho com seus lábios nos meus, leio-o de novo.
E sorrio.
Porque algumas histórias não terminam. Apenas fazem uma pausa.
E eu ainda acredito em finais felizes.
FIM
Nota da autora: Obrigada por acompanhar esta jornada de Sofia e Marina. Às vezes, as conexões mais intensas são as mais breves. Mas quem sabe? Talvez em algum universo paralelo, elas estejam juntas em um terraço em Paris, seguras e felizes.
Deixe nos comentários:
- Você acredita que elas se reencontrarão algum dia?
- O que você faria no lugar de Sofia?
- Quem era mais vulnerável no final – Sofia ou Marina?