À Sombra dos Arranha-Céus – Parte 3 (Final)

Aviso: Conteúdo sexual explícito e violência. Para maiores de 18 anos.


Acordei sozinho.

O espaço na cama onde ele dormira estava frio, apenas a impressão de seu corpo nas folhas como um fantasma em algodão. Cheirei o travesseiro — ainda carregava seu cheiro, aquela mistura de couro, suor masculino e o shampoo barato do meu banheiro que ele usara duas vezes.

Levantei-me, meu corpo protestando com cada movimento. As dores da noite anterior haviam se transformado em uma sensação geral de uso — meus músculos abdominais latejavam de tanto me arquear sob ele, minhas coxas doíam da amplitude a que foram forçadas, e meu ânus… meu ânus ainda sentia a ausência dele, como se meu corpo estivesse reclamando pelo preenchimento que perdera.

Fui até a janela. 6h17. A cidade de São Paulo começava a acordar, os primeiros carros pintando riscos de luz nas avenidas ainda escuras. Onde estaria ele agora? Em um carro rumo a Santos? Em algum lugar perigoso, com aquele colete à prova de balas e a nova contusão sob o olho?

Minha mente voltou às suas palavras: “Eu não sou apenas um segurança, Leo. E o homem que estou… protegendo… é alguém que você não quer conhecer.”

Deveria ter feito perguntas. Deveria ter exigido respostas. Em vez disso, deixara que ele me levasse para a cama, que sua boca e suas mãos me silenciassem.

No banheiro, examinei meu corpo no espelho. Marcas roxas em meus quadris — as impressões digitais dele onde me segurara com força. Um arranhão vermelho no meu peito, de quando seus dentes roçaram minha pele durante o sexo oral. Meus lábios estavam ligeiramente inchados, os cantos da boca doloridos da amplitude a que foram forçados.

Era um mapa de nossa noite, escrito em hematomas e arranhões.

O celular vibrou sobre a pia. Coração acelerado, peguei-o. Não era ele. Era uma mensagem de um número desconhecido:

“Esquece o que aconteceu. Bloqueia meu número. Não me procure.”

O sangue esfriou em minhas veias. Digitei rapidamente: “Rafael? O que está acontecendo? Onde você está?”

Três pontinhos apareceram. Pararam. Reapareceram. Então:

“Não é Rafael. E se você for inteligente, vai deletar essa mensagem e essa conversa AGORA.”

Deletar? Como poderia deletar? Minhas mãos tremiam sobre a tela. “Quem é você? O que fizeram com ele?”

Desta vez, a resposta veio imediatamente: “Último aviso. Some. Ou você vai sumir de verdade.”

O telefone caiu da minha mão, batendo no chão de porcelana com um estalo seco. Fiquei parado, olhando para ele, minha respiração acelerando até quase hiperventilar.

Algo estava muito errado.


Os três dias seguintes foram um pesadelo.

Voltei ao trabalho segunda-feira, mas mal conseguia me concentrar. Desenhava linhas tortas, esquecia reuniões, respondia perguntas com frases desconexas. Meu chefe, um homem gentil de cinquenta e poucos anos, colocou a mão no meu ombro.

“Leo, você está bem? Parece… abalado.”

“Insônia,” menti. “Passando por uma fase.”

À noite, não conseguia dormir. Deitava na cama que ainda cheirava a ele, e meu corpo — traidor, estúpido — respondia. Meu pênis endurecia apenas com a memória, minhas mãos desciam instintivamente para me masturbar, pensando em suas mãos, sua boca, o peso dele dentro de mim.

Na quarta-feira, cedi. Abri o aplicativo onde nos conhecêramos. Seu perfil havia desaparecido. Deleted. Como se nunca tivesse existido.

Pesquisei seu nome no Google — “Rafael segurança São Paulo”. Nada. Tentei combinações: “Rafael segurança particular Santos”, “Rafael escolta armada”, até mesmo “Rafael contusão olho São Paulo”. Nada útil apareceu.

Na quinta-feira à noite, a porta do meu apartamento foi arrombada.

Não estava em casa. Cheguei do trabalho às 19h e encontrei a porta entreaberta, a fechadura danificada, arranhões grossos no metal onde algo forte fora enfiado para forçá-la.

Entre, o coração na garganta. A sala estava revirada — almofadas rasgadas, o sofá virado, livros espalhados pelo chão. Corri para o quarto.

Meu quarto. Nosso quarto.

Gavetas abertas, roupas espalhadas, a cama desfeita. Mas o pior — o pior — estava na parede acima da cabeceira. Pintada com o que parecia ser meu próprio batom vermelho (eu não usava batom), uma frase:

ELE É NOSSO. PARA DE PROCURAR.

Sentei no chão, minhas pernas incapazes de me sustentar. Quem? Quem tinha feito isso? O que significava “nosso”? E Rafael… ele estava vivo? Ferido? Pior?

Peguei o celular com mãos trêmulas. Liguei para a polícia. Depois desliguei antes de completar a chamada. E se a polícia estivesse envolvida? E se fossem eles?

Em vez disso, fiz a única coisa que me ocorreu. Voltei ao aplicativo, criei um novo perfil, e comecei a procurar por homens que pudessem saber algo. Seguranças, ex-militares, qualquer um que pudesse ter conexões com o mundo sombrio onde Rafael aparentemente vivia.

Encontrei um. Perfil discreto, foto apenas de silhueta. O nome: “Capitão”. A descrição: “Resolvo problemas. Dos discretos.”

Mandei mensagem: “Preciso encontrar alguém. Trabalha com segurança. Nome Rafael.”

A resposta veio em minutos: “Encontro. R$ 5.000 adiantado. Só em dinheiro.”

Eu não tinha cinco mil reais. Tinha mil e duzentos na poupança, fruto de meses de estágio.

“Tenho mil.”

“Encontro mesmo assim. Amanhã. 23h. Largo da Batata. Vem sozinho. Se eu ver policial ou qualquer coisa estranha, some.”


Sexta-feira, 22h45. Estava no Largo da Batata, um vento frio cortante soprando entre os edifícios. Vestia um casaco escuro, as mãos enterradas nos bolsos, onde uma faca de cozinha — a arma mais perigosa que possuía — estava escondida.

Os minutos arrastavam-se. Grupos de jovens passavam, indo para bares, festas, vidas normais. Eu ali, no limiar de algo que sentia ser irreversível.

Às 23h07, um carro preto — um Honda Civic velho, vidros escuros — parou na minha frente. A janela do passageiro desceu. Dentro, um homem de cerca de quarenta anos, careca, com uma cicatriz que ia da testa até o queixo, passando pelo olho esquerdo, que era leitoso, cego.

“Entra.”

Abri a porta, entrei. O carro cheirava a cigarro e desinfetante barato.

“O dinheiro.”

Entreguei o envelope com os mil reais. Ele contou rapidamente, os dedos ágeis apesar das unhas sujas.

“Rafael Silva. Ex-PM. Expulso por conduta violenta. Agora trabalha para o Tavinho.”

“Tavinho?”

Um sorriso sem humor. “Tavinho Moura. Não ouviu falar? Que sorte a sua.” Ele acendeu um cigarro. “Traficante. Controla o Porto de Santos. Rafael é o braço direito dele. Ou era.”

“Era?”

“Tavinho tá puto. Rafael sumiu com algo. Algo valioso. Não dinheiro. Documentos. Coisas que podem colocar muita gente na cadeia.”

“Onde ele está?”

O homem olhou-me com seu olho bom — um olho castanho escuro, inteligente, que parecia pesar cada centímetro do meu ser. “Por que você quer saber? Ele te deve dinheiro?”

“Não.”

“Então é pessoal.” Ele inalou profundamente o cigarro. “Você é o garoto do apartamento. O do Bom Retiro.”

Meu sangue congelou. “Como você sabe?”

“Tavinho sabe de tudo. Tavinho tem olhos em todo lugar.” Ele jogou o cigarro pela janela. “Rafael falou de você. Erro dele. Erro seu também, agora.”

“Ele está vivo?”

“Por enquanto.” O homem olhou para o relógio. “Tem um depósito na Mooca. Armazém 7B. É onde Tavinho guarda coisas… e pessoas. Se Rafael ainda estiver em São Paulo, está lá.”

“Por que está me dizendo isso?”

“Porque os mil reais não pagam essa informação. Estou te dizendo porque não gosto do Tavinho. E porque acho que você vai se meter mesmo sem eu te contar.” Ele abriu a porta do meu lado. “Saia. E escute: se for lá, você não vai voltar. Eles vão te torturar para saber o que Rafael te contou, e quando perceberem que você não sabe nada, vão te matar. Simples assim.”

Saí do carro. Ele arrancou antes que a porta fechasse completamente.

Fiquei parado na calçada, o vento agora parecendo carregar vozes, ameaças, ecos de decisões erradas.

Voltei para casa? Poderia. Deletar tudo, mudar de número, talvez até de cidade. Esquecer Rafael, esquecer as noites, esquecer a sensação de estar completo pela primeira vez na vida.

Em vez disso, peguei um táxi. “Mooca. Rua do Porto, por favor.”


O Armazém 7B ficava em uma rua deserta, ladeada por galpões fechados, a única luz vindo de um poste que piscava intermitentemente. O portão estava fechado com uma corrente e um cadeado grosso.

Escalei o muro — mais fácil do que esperava. Do outro lado, um pátio escuro, cheio de pallets empilhados e contêineres enferrujados.

Havia luz em uma das entradas laterais do galpão principal. E sons — vozes abafadas, depois um grito. Um grito que reconheci.

Rafael.

Corri para a porta, que estava entreaberta. Espiei.

Dentro, um espaço enorme, iluminado por holofotes portáteis. Rafael estava amarrado a uma cadeira, sem camisa. Seu corpo — aquele corpo que eu conhecia tão intimamente — estava coberto de sangue fresco e antigo. Cortes, hematomas, uma queimadura de cigarro no peito.

Três homens o rodeavam. Um, magro, com tatuagens de caveira nos braços, segurava um pedaço de tubo de metal. Outro, gordo, suado, observava. O terceiro…

O terceiro sentava em uma cadeira de escritório, elegantemente vestido com um terno cinza que parecia caro demais para aquele lugar. Tinha cerca de cinquenta anos, cabelos grisalhos bem cortados, óculos de aro fino. Tavinho.

“Última chance, Rafael,” Tavinho disse, sua voz calma, quase paternal. “Onde estão os pendrives?”

“Joguei no rio,” Rafael cuspiu sangue no chão.

“Você não jogou. Você é muito cuidadoso para isso.” Tavinho levantou-se, caminhou até ele. “O garoto sabe? O seu… amiguinho do Bom Retiro?”

Meu coração parou.

“Não envolva ele,” Rafael rosnou. “Ele não sabe de nada.”

“Talvez. Talvez não.” Tavinho voltou para sua cadeira. “Vamos trazer ele aqui. Veremos o que ele sabe. E se não souber nada…” um sorriso. “…veremos o que você faz para proteger ele.”

Foi quando entrei.

Não foi heroico. Não foi planejado. Foi puro instinto. Abri a porta, entrei no círculo de luz.

Todos os olhos se voltaram para mim.

“Leo,” Rafael sussurrou, seu rosto uma máscara de horror. “Não…”

“Ah,” Tavinho sorriu, genuinamente divertido. “O amor chegou.”

O homem magro avançou. Eu puxei a faca, segurando-a diante de mim com mãos trêmulas.

“Fica longe dele.”

Risos. O homem gordo riu, um som úmido e desagradável.

“Coloca a faca no chão, garoto,” Tavinho disse calmamente. “Antes que você se machuque.”

Em vez disso, corri para Rafael. Cortei as cordas que prendiam seus pulsos — cordas grossas, que levaram vários cortes.

“Você é um idiota,” Rafael rosnou, mas seus olhos brilhavam com algo que poderia ser gratidão.

Ele levantou-se, cambaleante. Mesmo ferido, mesmo sangrando, ele era imponente. O homem magro avançou com o tubo. Rafael interceptou-o com um movimento surpreendentemente rápido, arrancou o tubo de suas mãos, e bateu com ele em seu joelho. Um estalo úmido, um grito.

O homem gordo puxou uma arma.

Foi então que as sirenes começaram.

Diferentes de sirenes de polícia — mais agudas, mais urgentes. E vozes amplificadas: “POLÍCIA FEDERAL! TODOS NO CHÃO!”

Tavinho praguejou. “Você chamou a polícia, Rafael?”

“Pior,” Rafael sorriu, sangue nos dentes. “Chamei a PF. Com os pendrives que tenho, você não vai ver a luz do sol por vinte anos.”

O galpão encheu-se de homens de preto, coletes à prova de balas, armas apontadas. Confusão. Gritos. Ordens.

Rafael agarrou minha mão. “Vamos.”

Corremos para a saída traseira, entramos em um carro que estava esperando — um Fox velho, com o motor ligado.

“Dirige,” ele ordenou, caindo no banco do passageiro.

Saí em disparada, o carro guinando para fora do pátio, entrando nas ruas escuras da Mooca.

“Para onde?” minha voz tremia.

“Hospital. Depois… não sei.”

Olhei para ele. Sangue escorria de um corte na testa, seu olho direito estava inchado e fechado, mas ele respirava.

“Os pendrives…”

“Estão com um amigo. Um amigo de verdade. Quando eu não der sinal por 48 horas, ele entrega para a PF.” Ele tocou meu rosto, sua mão ensanguentada deixando uma marca quente em minha bochecha. “Você é o ser humano mais estúpido e corajoso que já conheci.”

“Eles vão nos procurar.”

“Não. Tavinho vai estar ocupado tentando não passar o resto da vida na cadeia.” Ele fechou os olhos. “Pisa fundo, Leo. E me leva para longe daqui.”


Duas horas depois, estávamos em um hospital particular em Jundiaí, pago em dinheiro que Rafael tinha escondido no carro. Enquanto os médicos o costuravam, eu esperava na sala de espera, minhas mãos ainda tremendo, minha roupa manchada com seu sangue.

Ele tinha três costelas quebradas, um corte que precisou de quinze pontos, múltiplas contusões. Mas estava vivo.

Às 5h da manhã, me deixaram entrar em seu quarto. Ele estava acordado, os olhos semi-abertos, o corpo enfaixado.

“Senta aqui,” ele disse, sua voz fraca.

Sentei-me na beira da cama.

“Por que você veio?” ele perguntou. “Você poderia ter morrido.”

“Você também.”

“Isso é diferente. Eu… entrei nesse mundo. Você não.”

“Eu entrei quando deixei você entrar no meu apartamento,” eu disse, e era a verdade mais pura que já dissera.

Ele pegou minha mão. “Eu trabalho para a PF. Infiltrado. Há dois anos.”

Tudo fez sentido. As idas e vindas. O sigilo. O colete à prova de balas.

“Os pendrives…”

“Provas. Contra Tavinho, contra políticos, contra policiais corruptos.” Ele respirou fundo, fazendo uma careta de dor. “Agora acabou. Eu estou queimado. Vou ter que sumir.”

“Sumir?”

“Mudar de identidade. Talvez ir para fora do país.” Seus olhos encontraram os meus. “Sozinho.”

A palavra pendurada no ar entre nós.

“Ou não sozinho,” ele disse, tão baixo que quase não ouvi.

“O que?”

“Você viria comigo? Teríamos que sumir. Deixar tudo para trás. Seu trabalho, sua família, sua vida.”

Pensei em meu apartamento vazio. Em meu trabalho entediante. Em meus pais que mal me viam. Em todas as noites antes dele, deitado na cama, sentindo que faltava algo que não conseguia nomear.

“Para onde?”

“Portugal, primeiro. Depois… não sei. Onde quisermos.”

“E o que faríamos?”

“Viveríamos.” Um sorriso tênue tocou seus lábios rachados. “Eu tenho dinheiro guardado. O suficiente para começar de novo.”

Olhei para nossas mãos entrelaçadas — a minha, pálida, fina; a dele, larga, marcada por cicatrizes antigas e novas.

“Sim,” eu disse. E então, porque uma palavra não era suficiente: “Sim, eu vou com você.”


Epílogo: Três Meses Depois

Estamos em um apartamento pequeno em Lisboa, com vista para o Tejo. O outono europeu é mais suave que o paulistano, o ar carrega o cheiro do rio e dos pasteis de nata que compramos na padaria da esquina.

Rafael — agora “Miguel” — está quase recuperado. As cicatrizes estão fechando, se transformando em histórias que contamos apenas para nós mesmos à noite, na cama.

Nosso sexo é diferente agora. Mais lento. Mais profundo. Quando o penetro — sim, agora eu também o penetro, com um cinto que compramos em uma sex shop discreta — é com uma reverência que não existia antes. Quando ele me penetra, é com uma promessa.

Às vezes, acordamos no meio da noite com pesadelos. Ele, com memórias de porões e interrogatórios. Eu, com a imagem da faca em minhas mãos, da decisão que poderia ter terminado de outra maneira.

Mas então nos tocamos. E lembramos que estamos vivos. Juntos.

Esta manhã, ele me acordou com a boca em meu pênis, seus lábios especializados transformando-me de mole a duro em segundos. Quando gozei em sua garganta, ele subiu, beijou-me, e então sentou-se em mim, guiando-me para dentro de seu corpo com uma familiaridade que ainda me surpreende.

“Você é meu,” ele rosnou, movendo-se acima de mim, seus músculos abdominais contraindo-se com cada movimento.

“E você é meu,” respondi, minhas mãos em seus quadris, guiando-o.

Gozamos juntos, como sempre fazemos agora. E depois, deitados em uma poça de suor e sêmen, ele sussurrou em meu ouvido:

“Valeu a pena. Tudo valeu a pena.”

E eu, olhando para o teto deste apartamento que não é nosso, em um país que não é nosso, sabia que ele tinha razão.

Às vezes, você encontra amor em aplicativos de encontro casual. Às vezes, você encontra perigo em homens bonitos de jaqueta de couro. E às vezes, se tiver sorte e for muito, muito estúpido, encontra os dois.

E não trocaria nenhum dos dois por nada.


FIM


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  2. Acha que Leo tomou a decisão certa?
  3. O que imaginam para o futuro deles em Portugal?

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