No dia seguinte, Kyoto parecia me observar.
Caminhei pelas ruas estreitas como quem carrega um segredo recém-descoberto. Cada lanterna vermelha acesa me lembrava do toque no pulso, da voz baixa, do modo como ela se afastou sem realmente ir embora.
À noite, voltei ao ryokan.
Não esperava vê-la.
Ela estava sentada perto do jardim interno, observando a água escorrer lentamente sobre as pedras. O quimono claro deixava os ombros mais expostos. Não me olhou de imediato. Sabia que eu estava ali.
— Você voltou — disse, como se já soubesse.
Sentei ao lado dela, mantendo uma distância respeitosa demais para o que sentíamos. O silêncio entre nós era pesado, quente, quase físico.
— Aqui, as coisas acontecem quando estão prontas — continuou. — Forçar é quebrar a harmonia.
Inclinei o corpo levemente. Nossos joelhos quase se tocaram.
— E se a harmonia for justamente a espera? — perguntei.
Ela virou o rosto devagar. O olhar era calmo… mas decidido. Seus dedos tocaram o tecido da minha manga, subindo lentamente até meu antebraço. A pressão era mínima. O efeito, devastador.
Quando ela se levantou, deixou para trás apenas o calor do corpo que passou perto demais.
— Amanhã — sussurrou.
E foi embora.